NEVER THREATEN.

silent promises speak louder.

Ethan Arslan.

Ethan Arslan nunca soube exatamente quando deixou de ser uma criança. Não houve um momento simbólico, uma perda clara, apenas a lenta compreensão de que ninguém vinha salvá-lo. Filho de pais turcos que haviam emigrado para os Estados Unidos em busca de algo que nunca conseguiram alcançar, Ethan nasceu em solo americano — e perdeu esse chão cedo demais. Ainda criança, seus pais morreram, e com eles desapareceu a única ideia imperfeita, mas real, de família que ele conheceu. Não houve luto adequado, despedida ou alguém que explicasse o que vinha depois. Apenas o vazio administrativo que transforma crianças órfãs em números fáceis de serem apagados.Foi assim que ele cresceu em instalações que oficialmente não existiam, mantidas por organizações criminosas e empresas de segurança privada que operavam na fronteira entre o ilegal e o invisível. Crianças como ele eram retiradas de prisões, zonas de conflito ou vendidas por dívidas que nunca seriam pagas. Ali, não se ensinava a amar, mas a obedecer. Não se aprendia a sonhar, mas a sobreviver.Desde cedo, Ethan demonstrou uma mente afiada. Ele não era o mais forte nem o mais violento, mas observava tudo. Aprendia padrões, antecipava movimentos, entendia pessoas. Essa capacidade o tornou valioso. Enquanto outros eram descartados ou enviados para trabalhos brutos, ele foi treinado para algo mais específico: infiltração, manipulação e formação de outros. Ethan foi moldado para ser um instrumento, alguém capaz de entrar em qualquer ambiente, assumir qualquer papel e moldar pessoas conforme a necessidade de quem o controlava. Sua origem — americano nos documentos, estrangeiro no olhar alheio e órfão sem raízes — tornava ainda mais fácil desaparecer dentro de identidades fabricadas.Ao chegar à idade adulta, ele já havia participado de operações suficientes para não se ver mais como vítima. Aceitar isso doía menos do que admitir que nunca tivera escolha. Foi assim que o pai de Scarlett entrou em sua vida. Um homem que enxergava longe e entendia como ninguém o valor de criar monstros sob medida. Ele reconheceu em Ethan o perfil perfeito para o papel que precisava: alguém que pudesse treinar a filha sem quebrá-la, aproximar-se sem levantar suspeitas e, acima de tudo, observar se o plano estava funcionando.Quando Ethan conheceu Scarlett, algo saiu do controle pela primeira vez. Ela não era fria como o pai imaginava, nem quebrada como ele havia planejado. Havia nela uma gentileza teimosa, uma luz que persistia mesmo depois de tudo o que havia sido feito para apagá-la. Ethan tentou manter distância emocional, como sempre fazia, mas a convivência diária, os treinos, as conversas silenciosas após missões e a forma como ela ainda acreditava nas pessoas começaram a afetá-lo de maneira irreversível.Ele se viu ensinando mais do que o necessário, protegendo-a em situações em que não deveria, desviando ordens para garantir sua segurança. Pela primeira vez, Ethan não estava apenas cumprindo um contrato — ele estava escolhendo. E isso o apavorava.Quando Scarlett descobriu a verdade, o mundo que Ethan cuidadosamente mantinha em equilíbrio desmoronou. Ele não tentou se justificar. Sabia que qualquer explicação soaria como mentira. O que ele sentia por ela era real, mas também era verdade que havia sido contratado, que havia sido cúmplice de um plano cruel, mesmo que nunca tivesse concordado com sua finalidade. Ele acreditava, ingenuamente, que poderia protegê-la de dentro do sistema. Percebeu tarde demais que ainda estava sendo usado.Depois que se afastaram, Ethan não encontrou redenção — encontrou o fundo. Sem Scarlett, sem propósito e sem ilusões, ele mergulhou ainda mais fundo no submundo que sempre o havia moldado. Envolveu-se em crimes cada vez mais violentos, deixou de apenas treinar ou planejar e passou a executar. Pessoas morreram por suas mãos, algumas por ordens diretas, outras porque, naquele ponto, a linha entre obediência e escolha já havia se apagado. Ele não sentia orgulho, mas também não sentia mais resistência. Era como se estivesse punindo a si mesmo, confirmando que nunca poderia ser diferente.A queda final veio quando uma sequência de crimes chamou atenção demais para ser ignorada. Ethan foi preso, desta vez sem acordos, sem proteção e sem saídas. Passou dois anos encarcerado, tempo suficiente para que o peso dos mortos se tornasse insuportável. Na prisão, longe de codinomes e missões, ele foi forçado a encarar quem havia se tornado. Não tentou se justificar. Não pediu perdão. Apenas sobreviveu, como sempre fizera, carregando a culpa como uma sentença silenciosa.Quando saiu, o mundo havia seguido em frente — inclusive Scarlett. Ou pelo menos era isso que ele acreditava. Ethan desapareceu por um tempo, queimou identidades, tentou se manter longe de tudo o que havia sido. Mas algumas histórias não permitem finais limpos. O passado tem uma forma cruel de reencontrar quem tenta fugir dele.Foi assim que ele voltou a aparecer na vida de Scarlett. Não como o instrutor, nem como o homem que ela amou, mas como um fantasma que se recusa a permanecer enterrado. Ele não sabia quem ela havia se tornado, nem o que ela escondia por trás da máscara que usava. Apenas sabia que, ao reencontrá-la, todas as perguntas que tentou calar voltaram à superfície: se ainda havia algo a salvar entre eles, ou se o destino de ambos estava irremediavelmente ligado à violência, à perda e às versões monstruosas que aprenderam a ser para sobreviver.